Yu Yu Hakusho

Sunday, June 04, 2006

...:::Capítulo um - A nova geração de guerreiros:::...
A olhos leigos, seria impossível definir o que poderia vir a ser aquilo. Um inseto gigante? Um extraterrestre? Um monstro? A equipe os chamavam por 'Youkais'.
A aparência, de fato, não era das melhores. Um ser cascudo, marrom, que expelia uma gosma verde, com um grande par de asas nas costas e robustas antenas na cabeça. Parecia não estar de bom humor e atacava com tudo o que tinha. Sua oponente - uma jovem ruiva que trajava roupas cinzas feitas de um tecido que se moldava ao corpo - mesmo vendo-se já desarmada, tentou contra-atacar usando apenas os punhos como armas. Nisso, foi facilmente jogada longe. Caída no chão, recebeu uma rajada da gosma verde, que a fez perder a consciência. Um grito desesperado foi ouvido:
-MAI!!!
Cristiano, um rapaz negro, que usava roupas bem parecidas com as da garota, correu até ela e abaixou-se no chão ao seu lado. Levantou as costas dela do chão e, parecendo estar tomado por uma grande paixão, beijou-a nos lábios. O Youkai se aproximou do casal e tratou de também liquidar o rapaz.
As luzes se acenderam. O Youkai desapareceu. Uma voz autoritária se fez ouvir naquela sala:
-Muito bem, Agente Lopes. Sua despedida apaixonada acabou de te matar e de destruir completamente a missão.
Cristiano afastou seus lábios dos da garota. Ela, então, abriu seus olhos castanhos e puxados e não pôde evitar rir da situação. Ele riu junto.
O Capitão, no entanto, não pareceu achar a menor graça.
-Continuem levando as simulações na brincadeira, e terão sérios problemas nas batalhas reais.
-Humpf... Eu faria o mesmo em qualquer batalha real. - Comentou Cristiano, divertido. Levantou-se e estendeu a mão para sua parceira.
Nesse momento, mais três jovens adentraram o ambiente: dois rapazes, um americano e um chinês; e uma jovem italiana. O capitão caminhou até um telão, localizado ao final da sala. Os cinco agentes o seguiram
-Acabo de receber o alerta de mais uma invasão nas proximidades da Estação de Nagoya. Mais um youkai de classe D, causando um pequeno tumultuo na área. Apenas um de vocês já é o suficiente para resolver a situação... Mas, como é sempre melhor prevenir-se para qualquer incidente, gostaria que fossem em dupla.
A ruiva deu um passo à frente e se candidatou, formalmente:
-Capitão Minamino, peço autorização para ser designada à missão.
O capitão, um homem de trinta e nove anos, cabelos ruivos e curtos e olhos verdes, analisou a garota por um rápido momento, antes de responder com igual formalidade:
-Autorização concedida, Agente Watsuki.
Cristiano levantou a mão e segurou o riso diante do olhar nada amigável que seu superior lhe lançara.
-Peço desculpas pelo incidente durante a simulação. Não irá se repetir. Aproveitando, será que eu poderia acompanhar a minha gat... Digo, a Agente Mai Watsuki?
O capitão Suuichi Minamino o olhou de cima a baixo. Mesmo tendo a total certeza de que algum dia se arrependeria amargamente disso, tinha que admitir que gostava daquele jovem. Podia ser brincalhão e irresponsável durante os treinamentos, mas sabia se portar diante de uma luta 'pra valer'... Lembrava, um pouco, um velho amigo seu...
-Autorização concedida, Agente Lopes. - Disse ele, por fim.
O casal bateu continência e saiu. Minamino os seguiu com os olhos, olhando em seguida para os outros três jovens que ainda o olhavam, aguardando por ordens.
-Yin, já conseguiu a normalização do sistema?
Chun Yin, um chinês de vinte anos, apenas moveu a cabeça negativamente. Era o encarregado da área informatizada do local.
-Continue tentando. - Pediu o capitão. - Smith, já terminou com as novas armas?
-Ainda não, capitão. - Respondeu o americano, Mark Smith, de dezenove anos, cabelos loiros e curtos e olhos azuis. Era o inventor da equipe - Estou em fase de finalização.
-Correto. Bertolli?
A caçula do grupo, uma italiana de dezesseis anos, voltou os olhos verdes para o capitão. Sentiu-se um pouco desapontada ao ouvir sua ordem para o dia:
-Tire a tarde de folga.
-... Hai.
-Podem ir.
Os três bateram continência e foram embora, cada em uma direção. A sala ficava bem ao centro, sendo ligada por vários corredores a todos os outros setores daquela nada modesta base subterrânea.
Uma vez sozinho, Suuichi Minamino voltou-se para o telão, como se prevendo que uma imagem surgiria ali. Foi o que aconteceu poucos segundos depois, quando um jovem de cabelos castanhos e lisos e olhos castanhos surgiu na tela.
-Já faz algum tempo... Koenma-sama.
O rapaz sorriu brevemente, embora seu olhar permanecesse sério.
-De fato. Você mudou bastante, Kurama. ...Se é que ainda posso te chamar assim.
-Conseqüências da vida humana.
-Não havia a necessidade disso. Você ainda é um youkai. No momento em que quiser, pode 'travar' esse envelhecimento e retomar a aparência de vinte anos atrás.
-Não fale como se eu fosse um velho.
-Não é bem isso. Aliás, está muito bem para um humano de quase quarenta.
-Foi a vida que escolhi. Não me arrependo disso. Mas está entrando em contato apenas para elogiar a minha aparência?
-Iiê, eu não sou dessas coisas. Há três anos você assumiu um grupo de adolescentes e os treinou para resolverem os pequenos casos de invasões no Ningenkai. Pelo que soube, eles têm feito um bom trabalho. Há anos que não designamos detetives, mas com essa sua equipe não vemos a necessidade disso.
-São bons garotos. Atrevo-me a dizer que são os melhores, mesmo nenhum deles possuindo qualquer tipo de energia espiritual.
-Agora chegou o momento de provar se são mesmo os melhores, Kurama. Temos um problema sério... Coisa de gente grande. Acha que estão preparados para assumir isso?
Kurama não pareceu pensar nem por um segundo antes de responder, convicto:
-Estão mais do que preparados.

*****
-Arg... Bicho feio!
Mai riu diante da cara de nojo que Cristiano fazia, encarando o youkai que acabara de matar, dentro de um supermercado (ou o que restara dele), localizado próximo à saída da Estação de trem de Nagoya.
-Foi bem mais fácil que a baratona gigante. - Concluiu ele. Sacou uma pistola e apontou para o youkai. Uma espécie de laser foi disparado contra o monstro, que desapareceu como num passe de mágica. - Prontinho, monstrengo pulverizado! Dar um sumiço no cadáver é a parte mais fácil da brincadeira.
Um grito assustado foi ouvido no local. O casal olhou para o funcionário que, aterrorizado com a cena, pulou de trás de um balcão e correu porta à fora. Cristiano coçou a cabeça e olhou para a arma em suas mãos.
-Cara... Dá pra dormir com um barulho destes? Povo sempre se assusta quando me vê fazendo isso... Acho que é porque eu sou negro u.u
Mai riu mais uma vez.
-Lógico. Evidente que o fato de você aparecer do nada, lutar contra um 'monstro' e portar uma pistola que pulveriza um ser de duzentos quilos em segundos não tem nada haver com isso.
-É! Maldita sociedade racista u.u
-^^" ...Acho melhor voltarmos pra base.
-Ah, pra quê? Já treinamos o suficiente por hoje.
-Treinamos, é? O capitão não pareceu gostar nadinha do desfecho do treinamento. u.u
-Tá faltando um pouco de romantismo naquele sujeito u.u Duvido que se fosse ele, vendo sua amada ser atacada diante de seus olhos, se não teria a mesma reação u.u
-...Talvez tivesse.
Cristiano percebeu um leve traço de tristeza nos olhos da garota e tentou mudar drasticamente o assunto:
-Já decidiu o que faremos na sexta?
-Sexta?
-...Que dia é sexta, Mai? ¬¬'
-Sei lá O.o ...Quinze? Dezesseis?
-Seu aniversário, gata u.u'
-Ah, é verdade! O.o ...Não tinha me ligado nisso ^^"
-Como pode alguém esquecer o próprio aniversário? ¬¬'
-Acontece ^^" Sabe que não gosto muito de comemorar.
-E você sabe que odeio essa sua mania de não comemorar. ¬¬' Vamos fazer uma festa! *.*
-Ah, Cris... Num precisa u.u
-Precisa, sim! ¬¬' ...Podemos fazer o seguinte... Se o capitão permitir, usaremos o salão da base. Tava pensando que poderíamos...
Empolgado, ele começou a contar sobre seus planos. Mai apenas ouvia a tudo com um sorriso no rosto, não ousando comentar que, na verdade, não estava nem um pouco animada com aquilo tudo. Saíram do mercado, caminhando lentamente pelas ruas.

*****
-Não encoste aí, Alex!
-Non me trate como criança, Mark ¬¬'
-Então não se porte como uma u.u... E eu já disse pra não encostar aí Ò.ó
Como uma criança contrariada, a italiana bufou e se afastou da grande bancada onde Mark trabalhava em sua atual invenção; sentou-se num banco que ficava num canto, encostado à parede, cruzou os braços e fez bico.
-Também... Io non vou mais tentar te ajudar. u.u
-Ah valeu! ...Ou deveria dizer, 'gracias'?
-Isso é espanhol, non é italiano ¬¬' - Ela passou a mão sobre os cabelos loiros e lisos, que batiam pouco abaixo dos ombros - ...Ninguém me leva a sério por aqui u.u'
-Foi só uma brincadeira, Alex. Não sou nenhum cara hiper culto, mas sei a diferença entre italiano e espanhol u.u'
-Si... Mas non perde a oportunidade de tirar una com mio sotaque ou com la mia... Digo, a minha... Como é mesmo a palavra? u.u'
-Empolgação? O.o
-Non u.u
-Hiperatividade?
-Non u.u
-Estatura? ^^"
-Iiê ¬¬''' ...Com meus dezesseis anos ¬¬'
-Ah, com a sua IDADE ^^"
-Eco u.u Viu o capitão? Deu missões para todos, menos para io. u.u
Mark largou o que fazia e olhou para a garota. De certa forma, podia fazer uma vaga idéia de como ela se sentia com aquilo tudo. Alexandra Bertolli, ou apenas 'Alex' para os amigos, era a mais nova integrante da equipe, estava com eles há pouco mais de um ano. Como todos ali, teve sua vida tragicamente marcada em decorrência de ataques dos Youkais que conseguiam atravessar a barreira para o Ningenkai. Fora resgatada pelo grupo, e escolhida pelo capitão Minamino para integrar a equipe. Como no habitual sistema de adaptação, tinha que passar por uma seqüência de treinamentos... O problema era que julgava aquele treinamento longo demais. Ainda não tinha sido designada para missão alguma, além de não ter uma função específica na base. Além disso, ainda apresentava uma dificuldade maior do que a dos demais com o idioma.
-Vai, 'bambina'... Não se deprima com isso.
-Fala assim porque é da equipe... Io non sou ninguém.
-Se não fosse ninguém, o capitão não teria te escolhido. Não sabemos ao certo que parâmetro ele usou para escolher cada um de nós... Mas com certeza teve algum. Temos algo de especial, por isso estamos aqui.
-Acho que ele se enganou comigo... E percebeu isso. Você, o Chun, o Cris, a Watsuki... Todos têm suas funções. E io? O que faço de útil?
-Você... Bem... O.o... Você... Ah, sempre ajuda o Cris na cozinha ^^"
-Só descasco legumes, pego as coisas pra ele na geladeira, lavo a louça... Ele non deixa io chegar perto do fogão u.u
-Mas isso já é uma grande ajuda. Também sempre participa das reuniões e dá suas opiniões... Muitas delas são aproveitadas.
-Mas a maioria não u.u
-Mais do que as do Cris ^^"
-Aquele louco só tem idéia suicida ¬¬'
-...E você também me ajuda.
-Io tento, mas você nunca deixa. Diz que io sou estabanada e sempre te atrapalho u.u
-Não digo mais, tá legal? Então, por que não me ajuda agora?
Alexandra levantou-se, empolgada, e abriu um largo sorriso.
-Di tutto cuore! ...O que quer que eu faça? ^-^
-...Vá buscar um copo de água pra mim, estou morrendo de sede. ^-^
-O.o... Aff... Dio santo ¬¬''
Emburrada, ela saiu para fazer o que Mark pedia. O americano apenas riu e voltou à atenção ao que fazia.

*****
Enquanto isso, em Tóquio...
As duas dividiam uma enorme gota diante da cena. Era no mínimo muito estranho que dois amigos dos tempos de colégio, que passaram por tantos momentos difíceis juntos, depois de quase dez anos sem se verem se cumprimentassem de modo tão formal.
-É um prazer te rever! - Disse um deles, apertando a mão do outro.
-O prazer é meu, cara!
-...Muito legal mesmo te reencontrar. Cê envelheceu.
-Nem tanto quanto você. Mas a cara de pastel continua a mesma.
Eles bem que sentiam uma certa vontade de se abraçarem, mas contiveram isso ao máximo. Olharam para as duas mulheres e afastaram as mãos.
-E aí, Yukina, beleza? ^-^
-Keiko, quanto tempo! ^__^ Tudo bem com você?
-Vocês são dois idiotas u.u' - Extravasou Keiko. - Sim, Kuwabara, eu estou bem. u.u
Yukina sorriu, um tanto sem graça, e pediu que os convidados se sentassem no grande e confortável sofá da sala. O casal Urameshi assim o fez, enquanto Kuwabara sentava-se numa poltrona.
-Vou preparar um chá para vocês. - Disse gentilmente a dona da casa - Fiquem a vontade ^-^ - E ela saiu, rumo à cozinha.
-Rapaz, que casona bonita! O.o - comentou Yusuke, percorrendo os olhos pela sala.
-Incrível que essa é a primeira vez que vocês vêm aqui. - Respondeu Kuwabara.
-Ah, sabe que a vida é puxada, né? É complicado pra gente sair, por causa do restaurante. Mas vocês também nunca arrumam um tempinho pra ir nos visitar ¬¬'
-Nós já fomos lá algumas vezes u.u
-Tem séculos, hein? ¬¬' Meus filhos ainda nem eram nascidos. ...Ei, Yuuki, mexe aí não, pirralho! ¬¬'
O menino de seis anos de idade afastou as mãos do vaso que ameaçava tirar de cima de uma mesinha e saiu correndo para o outro lado da sala, sendo seguido pela irmã gêmea.
Kuwabara sorriu levemente diante da cena, recordando-se da época em que seu filho tinha aquela idade. Mas sabendo que aquele não era o momento para recordações, olhou para Yusuke, indo direto ao assunto:
-Então, você também foi atacado?
Yusuke ficou sério ao ouvir a pergunta.
-É, eu fui. Liguei para o Kurama, ele me explicou o que está acontecendo. Parece que a situação está mais grave do que ele imaginava.
-É, ele entrou em contato comigo também. Tá querendo uma ajuda.
-Ele contou que durante esses últimos anos andou treinando um grupinho de jovens, mas tem receio de que eles possam não dar conta do recado.
-São jovens normais, sem nenhum tipo de habilidade especial. Ele não explicou ao certo o que era o problema, mas é lógico que vai precisar da nossa ajuda. Eu oferecerei uma ajuda dupla!
-Dupla? O.o
-Essa é a oportunidade de ouro do meu garoto se mostrar para o mundo! *.*
-Ele domina o Leizen? O.o
-AINDA não. - ele abaixou a voz - Sabe, minha Yukina protege muito o moleque, acha que não há a necessidade de treiná-lo... Mas como é uma situação de emergência...
-Entendo O.o...
Yusuke virou os olhos para o alto, pensativo. Após alguns instantes, parecendo ter uma idéia, olhou para o pequeno Yuuki. Keiko entendeu suas intenções e tratou de cortá-lo:
-Nem pense nisso ¬¬'
Ele suspirou, desanimado. Não se dando por vencido, olhou para a filha. A veia que pulsava na testa de Keiko ficou ainda mais evidente.
-Yusuke!!! Ò.ó
-Tá, mulher... Foi só uma idéia, eu hein... u.u
-Eles têm seis anos, Yusuke! Ò.ó
-Tem razão, eu sei u.u... Mas um dia vão crescer >D
-Continue com esses planos, e não vai viver pra vê-los crescidos Ò.ó
-Tá legal, Keiko ¬¬' As crianças ficam fora disso, tá bom assim? ¬¬' ...Então, Kuwabara, quando pretende ir para Nagoya?
-Amanhã. Ainda tenho que conversar com meu filho, ele ainda não voltou do trabalho.
-Nossa, seu garoto já está trabalhando? O.o E o que ele faz?
-É professor numa academia... De artes marciais! ^-^
-Da hora O.o - ele olhou novamente para os filhos, traçando em sua mente planos para eles.
Novamente, Keiko pareceu ler seus pensamentos:
-Yusuke ¬¬' Eles vão ser o que eles quiserem! Ò.ó
-Se eu tiver filhos fracotes, a culpa é toda sua ¬¬'
E o casal continuou a discutir, até que Yukina regressou, trazendo o chá.

*****
Sentada diante de uma mesa de uma lanchonete, Mai ria de alguma coisa engraçada dita por Cristiano. Podia-se dizer que formavam um casal que se completava. Mai não era de muitas palavras, era do tipo que ouvia mais do que falava e tinha um riso fácil. Já Cristiano, falava pelos cotovelos, sempre espontâneo, de bom humor, nada parecia abatê-lo. A única pessoa que o conhecia bem além daquela imagem de alegria infinita era Mai, a única com quem ele, ainda que raras vezes, tinha a liberdade de contar sobre suas angústias, seus problemas, suas más lembranças, seus sentimentos... Mas isso de fato era raro. Conheciam-se há três anos... Namoravam há pouco menos de dois.
-Cris, você é um bobo! - Disse ela, tentando conter o riso.
-E você é linda ^-^
Ela sorriu, corando de leve. Olhou através do vidro da janela, reparando que o sol já começava a se pôr.
-Já vai anoitecer...
-Desde quando a agente Watsuki tem medo de escuro?
-Não me chame assim. Sabe que não gosto. Apenas o capitão me chama dessa forma.
Cristiano ficou sério. Um raro traço de tristeza passou em seus olhos negros.
-E você também não gosta, não é? Queria que ele te tratasse com menos formalidade.
A ruiva pareceu um pouco perturbada com a pergunta, mas tratou de disfarçar:
-Não tem nada haver. Sou agente dele, e é assim que ele deve me tratar, não tenho razões para exigir menos formalidade.
Ela bebeu o restante de seu suco num gole só. Cristiano decidiu que não valia à pena insistir no assunto.
-A Alex me falou que vai ter um baile no colégio de vocês.
-É, vai. - Ela tornou a sorrir e a olhar para o namorado - Ela quer convidar o Chun pra ir com ela.
-Tá falando sério? O.o... Ah, qual é? Ele nunca vai aceitar XD
-Não fale assim, sabe que ela gosta dele.
-Eu sei. Aliás, todo mundo sabe, até o Chun. Acho muito difícil aquele cara um dia querer ter uma namorada... E mesmo que seja assim, nunca vai escolher a Alex. Ela é muito criança pra ele.
-Quem sabe? ^-^
-Se fosse o Mark, talvez até desse certo... Os dois se dão tão bem.
-Não, não daria certo. Sabe que o carinho que têm um pelo outro não é bem com essas intenções.
-É, tô ligado. Os dois têm histórias bem parecidas... Ambos eram órfãos... Mark perdeu a irmã mais nova. Alex, o irmão mais velho... Acho que acabaram substituindo as figuras dos irmãos que perderam.
-Amor fraternal... Não deixa de ser uma coisa muito bonita.
-Isso eu já não sei, não tive irmãos. ...Mas e você? Animada com o baile?
-Eu não vou. Não me sentiria bem, acho que não tenho mais idade pra isso.
-Fala sério, minha gata! Tem só dezoito anos.
-É, mas você mesmo me lembrou que faço dezenove em alguns dias. Sou dois anos mais velha que o restante da minha turma.
-Não precisa se sentir mal por isso. Sabe que não teve culpa alguma dos dois anos que não pôde estudar.
-Eu sei. Mas isso não me torna menos velha ^^" - De repente, o olhar dela tornou-se triste e ela segurou as mãos do namorado por cima da mesa - Cris, quero te pedir um favor.
-O que, Mai? - Perguntou ele, preocupado.
Ela suspirou, antes de responder:
-Eu não quero festa de aniversário.
-Mas Mai... Não pode passar seu aniversário em branco.
-Por favor, Cris.
-...Faremos o seguinte, então, vamos sair pra jantar, só nós dois. O que acha?
-Não, Cris. Não entende? Não quero comemoração alguma. Quero que o dia passe naturalmente, como qualquer outro dia do ano.
-Não é qualquer outro dia. É seu aniversário.
-Mas eu quero que seja assim, Cris. Por favor.
-...Tudo bem, minha gata. Sem comemorações.
-Obrigada. ...Já está escuro, melhor irmos logo.
Cristiano não contestou o pedido. Pagou a conta e os dois saíram juntos. Já na rua, abraçou-a e ela deitou a cabeça no ombro dele. Seguiram assim, rumo à base.

*****
Enquanto digitava freneticamente diante da tela de um computador, o chinês Chun Yin não parecia perceber que estava sendo observado. Parada diante da porta, ainda segurando o copo com água que fora buscar para Mark, Alexandra olhava para o rapaz, tentando criar coragem para dizer o que queria.
Por vezes, julgava-se um tanto tola por nutrir aquele tipo de sentimento. Afinal, qualquer um diria, sem pensar duas vezes, que os dois jamais fariam um bom casal. Enquanto Alex era uma colegial, com toda a sua empolgação de adolescência, Chun era um rapaz mais velho... Tinha vinte anos, mas uma maturidade de no mínimo quarenta. Introspectivo, calado, sério, pouco sociável... Os dois eram totalmente opostos, mas talvez fosse isso o que mais encantasse a italiana. Ela nunca se interessara por nenhum garoto, nem na Itália nem agora no Japão... Apenas tinha olhos para Chun.
-Com licença... - Disse ela, por fim. Timidamente, adentrou a sala de informática e se aproximou do rapaz - Io precisava falar com você.
-...Diga. - Foi tudo o que o chinês murmurou, sem desviar nem por um instante os olhos do computador.
-É que... Bem...- Ela olhou para o chão, enquanto tentava criar coragem para aquilo - É que, semana que vem terá um baile no meu colégio. E, bem... Io estava pensando se... Digo, se você non estiver ocupado, talvez queira... Er... Talvez você possa...
Ele parou de digitar, mas não a olhou.
-Bertolli?
-Si? - Ela tornou a olhá-lo. Os olhos verdes brilhando de expectativa.
-Se não se importa, estou ocupado agora, e certamente também estarei na semana que vem. Será que dá pra sair e deixar-me terminar o meu trabalho?
Alex sentiu um forte 'baque' diante da resposta e do modo frio com que foi dita. Por um momento, o ar lhe faltou, as mãos ficaram geladas e ela sentiu como se o chão sumisse debaixo de seus pés. Um forte aperto no peito, um desejo de sumir... Depois, veio a raiva... Raiva de si mesma, por ser tão tola em acreditar que Chun pudesse aceitar seu pedido.
Com naturalidade, o chinês voltou ao seu trabalho. Alexandra, mais do que rapidamente, virou-se e saiu do local, correndo. Atravessou o extenso corredor do setor de informática, passou pelo salão de treinamentos e entrou por outro corredor, até chegar à sala onde Mark trabalhava.
Ao ouvir a porta sendo aberta, o americano parou o que fazia e olhou para lá. Deparou-se com a garota, segurando um copo quase vazio em mãos e respirando ofegantemente, enquanto os olhos verdes começavam a transbordar em lágrimas.
-Alex? - Preocupado, ele foi até a garota - O que foi?
-Gomen ne... - Disse ela, estendendo para ele o copo com menos de dois dedos de água - Acho que deixei um pouco da água cair pelo caminho... Io sou meio afobada...
Mark tirou o copo da mão dela e colocou no chão, assim que se abaixou diante da garota, como se faz com uma criança.
-O que aconteceu?
Ela forçou um sorriso, enquanto as lágrimas começavam a rolar por seu rosto.
-Io sou mesmo muito afobada, non é? Non faço nada direito, pareço una criança... Como dizem por aqui? ..."Baka", é isso que eu sou.
-Não, Alex... Você não é nada disso.
O sorriso dela aos poucos de desfez, e ela rendeu-se totalmente ao choro.
-...Então... Por que ele não gosta de mim?
Mark sabia que não poderia responder àquela pergunta. E também não fazia idéia do que dizer para tranqüilizar a menina. Tudo o que sabia é que não gostava nem um pouco de vê-la naquele estado. Era inconcebível vê-la triste. Alex era a alegria daquela equipe... Era a sua alegria.
-Mark... - Sussurrou ela, em meio a soluços. Levou as mãos ao peito esquerdo, como se para mostrar onde doía - Como eu faço pra parar de doer?
Mais uma pergunta que ele não saberia responder. Dessa vez, ele não perdeu tempo pensando em respostas e fez a única coisa que poderia fazer por Alexandra nesse momento: envolveu-a nos braços, com o mesmo carinho que teria por sua irmã.
Ela retribuiu ao abraço e continuou a chorar.

*****
Eram pouco mais de onze da noite. Horário de total silêncio na base. Eram esses momentos que Kurama reservava para inspecionar os setores, ver se estava tudo em ordem. Também aproveitou para fazer alguns telefonemas. Ligou para Yusuke e Kuwabara e explicou a eles como chegarem à base. Marcaram de ir para lá na manhã seguinte. Também falou com Koenma, que também se comprometeu de ir até lá juntamente com os ex-detetives.
Não tinha mais nada o que fazer, mas estava sem sono. Resolveu ir para a cozinha, talvez fazer um lanche, pensar um pouco sobre o que estava por acontecer... E sobre o que já lhe havia acontecido no decorrer dos últimos onze anos. Ao final do corredor dos dormitórios, para ter acesso ao salão por onde deveria passar para ir à cozinha, deparou-se com uma porta fechada. Para abri-la, precisava passar seu cartão de identificação num pequeno aparelho. Assim o fez. Num visor ao lado da porta, antes desta se abrir, surgiu sua fotografia, acima de seu nome. "Suuichi Minamino".
Seguiu para a cozinha. Ao chegar lá, surpreendeu-se ao constatar que não era o único que estava acordado no local.
-Watsuki? - Ele chamou.
A ruiva estava de costas para a porta, sentada diante de uma mesa de oito lugares. Quando ela virou o rosto para trás, Kurama pôde ver que ela segurava em mãos uma fotografia.
-Capitão. - Respondeu ela, também surpresa em vê-lo ali.
-O que faz acordada?
-Eu perdi o sono. ...Mas, já que o senhor está aqui, será que eu poderia conversar um instante contigo?
Kurama percebeu que ela parecia abatida e procurava alguém para desabafar sobre os motivos daquilo. Perguntava-se o que poderia ser. Algum problema com Cristiano Lopes? ...Mas os dois pareciam tão bem quando regressaram da rua. Intrigado, apenas moveu levemente a cabeça. Mai puxou uma cadeira ao seu lado, onde o ruivo se sentou.
-É que... Meu aniversário está chegando.
-Eu sei.
-Sei que é um dia em que eu deveria me sentir feliz, mas... – Ela desviou os olhos dos do capitão, olhando para a fotografia em suas mãos – Essa é a época do ano que mais lembro da minha mãe.
Ao olhar de perto para a foto, Kurama enfim reparou do que se tratava. Era uma mulher de pouco menos de trinta anos; cabelos castanho-escuros e compridos e olhos também castanhos, mas de um tom mais claro... Idênticos aos de Mai. Era a mãe dela.
Ele fechou os olhos por um momento. Quando tornou a abri-los, também evitou encarar a garota. Ela fez uma pausa para tomar fôlego e prosseguiu:
-Fico lembrando dos meus aniversários de criança... Mamãe fazia questão de preparar um bolo e chamar minhas amiguinhas do colégio - Ela sorriu tristemente - Era a maior bagunça, mas ela não parecia se importar. Depois da festinha, me ajudava a abrir os presentes e me levava pra cama... Como fazia todos os dias, ficava comigo até que eu dormisse. Lembro da voz doce dela... "Boa noite, minha princesa. Durma com os anjos". Não faz idéia do que eu não faria para tornar a ouvir essa frase. Sei que já estou bem crescidinha, mas... Ainda sinto a falta dela. Acho que sempre vou sentir.
Mai tornou a olhar para Kurama, que permanecia com os olhos fixos no nada, como se viajando em seus pensamentos.
-Eu entendo. - Disse ele, sem olhar para a garota.
-Há mais de uma década que não tenho motivo algum para comemorar. ...Desde o último aniversário que ela passou comigo. - Mai abaixou o rosto. Os olhos castanho-claros rapidamente começaram a transbordar - Não foi justo ela morrer tentando me salvar... Era eu que deveria ter ido no lugar dela.
Kurama permaneceu em silêncio por alguns instantes, parecendo pensar bastante sobre o que deveria dizer à garota. Por fim, tornou a olhá-la.
-Acho que ela não iria gostar de te ver falando desse jeito. Se ela se sacrificou por você, é porque, para ela, a sua vida era mais importante.
-É... Mas ela não perguntou a minha opinião. - Ela arrastou a cadeira para trás e se levantou - Desculpe, não sei por que fui encher o senhor com meus problemas. Acho melhor eu ir dormir.
-Sim, durma. Terá um dia puxado amanhã.
-Hai.
Mai virou-se para sair da cozinha. Já chegava à porta quando parou, ao ouvir a voz de seu superior chamando-a:
-Mai?
Por alguns instantes, ela viu-se paralisada diante da surpresa... Mesmo estando fora de treinamento, mesmo estando apenas os dois a sós, era raríssimo Suuichi Minamino chamá-la pelo primeiro nome. Depois, ela voltou-se para ele, e a surpresa foi ainda maior quando ele, abrindo um leve e quase imperceptível sorriso, disse:
-Boa noite. Durma com os anjos.
Mai retribuiu o sorriso, sentido sua vista turvar em conseqüência das lágrimas.
-Boa noite... Pai.
Ela virou-se e saiu. Chegando ao corredor que ia para os dormitórios, retirou o crachá preso na blusa do pijama e passou a parte magnética numa pequena máquina, o que acionou a abertura da porta de acesso. No visor, surgiu sua fotografia, acima do seu nome:
'Mai Watsuki Minamino'

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1 Comments:

  • At 2:50 PM, Anonymous Karina said…

    Ahhhhhhhh eu jah tinha lido mesmo hahaha!!
    Coloca coisa nova =D!!!!
    Mas tah muito legal...Mas quero entender pq o Kurama trata a filha assim...

    Bjosss

     

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